Por Lucas William Saura — Eng. de Produção, NACE Level 2

1. Introdução
A integridade de um sistema de pintura industrial depende diretamente da qualidade do seu substrato. A literatura técnica (ISO 8501, ISO 8502 e ISO 8503) estabelece critérios claros para limpeza, contaminação e perfil de rugosidade, porém, na prática, observa-se que muitos desvios ocorrem por falta de controle metrológico.
Entre esses parâmetros, o perfil de rugosidade (surface profile) é um dos mais críticos. Quando executado acima da especificação, cria-se um aumento não linear da área superficial, exigindo maior volume de tinta para atingir o DFT, elevando custos e reduzindo a confiabilidade do sistema.
2. Fundamentação Teórica: Relação entre Rugosidade e Consumo
O perfil de rugosidade é constituído por picos e vales gerados pelo jateamento abrasivo. Quanto maior este perfil, mais tinta é necessária para preencher os vales, garantindo:
- cobertura integral,
- espessura mínima de barreira,
- ancoragem mecânica,
- molhabilidade adequada.
A espessura úmida (WFT) necessária é determinada pela relação:

Onde:
- DFT = espessura seca desejada
- VSF = volume de sólidos do revestimento
3. Estudo de Caso: Efeito da Rugosidade acima da Especificação
O estudo detalhado abaixo corresponde ao cenário real de uma obra industrial de 1.000 m².
3.1. Dados do estudo
Especificação correta
- Rugosidade: 50 μm
- DFT: 200 μm
- VSF: 65%
- WFT calculado:

Rugosidade executada — erro observado
- Rugosidade: 90 μm
- Aumento estimado da área superficial: 20–25%
- Adotado para cálculo: fr = 0,25 (25%)
Esse fator representa o aumento de tinta necessária devido ao preenchimento adicional dos vales formados pelo jato mais agressivo.
4. Cálculo Completo do Consumo de Tinta
4.1. Rendimento teórico com WFT = 308 μm
O rendimento informado é:
- 3,25 m²/L (valor típico para tinta epóxi 65% SV a 308 μm de WFT)
Assim, o consumo teórico para 1.000 m² é:

4.2. Consumo real com rugosidade superior (90 μm)
A fórmula utilizada:

Diferença total de tinta:

5. Impacto Financeiro Direto
Considerando:
- Tinta: R$ 60/L

Esse é o prejuízo por obra de 1.000 m².
6. Projeção de Prejuízo Anual
Para uma empresa que pinta:
- 80 m²/dia
- 22 dias/mês → 264 dias/ano
Isso equivale a aproximadamente:

Assim, o custo anual é:

Ou seja, ≈ R$ 100 mil desperdiçados anualmente devido apenas ao perfil de rugosidade fora da especificação.
7. Discussão Técnica
7.1. Implicações no filme seco
O aumento da rugosidade provoca:
- espessuras irregulares (picos finos e vales espessos)
- maior risco de solvent trap
- aumento do tempo de cura
- diminuição da vida útil do revestimento
7.2. Impacto operacional
A execução acima da rugosidade recomendada resulta em:
- elevação no volume aplicado,
- aumento do tempo de aplicação,
- maior consumo de solventes para limpeza,
- desgaste acelerado de bicos e bombas,
- maior probabilidade de retrabalho.
7.3. Impacto econômico
Os 77 litros analisados representam apenas a primeira demão.
Em sistemas multicamadas, o prejuízo multiplica-se por:
- número de demãos,
- tipo de revestimento,
- área total do projeto.
8. Conclusão
Os cálculos demonstram que a rugosidade é um parâmetro de altíssimo impacto econômico e técnico. Quando não controlado, gera desperdícios significativos, reduz a qualidade da aplicação e compromete a durabilidade do sistema.
A pintura industrial exige engenharia, não tentativa e erro.
O controle metrológico adequado — rugosidade, sais, poeira e limpeza — deve ser tratado como investimento, não como custo.
O prejuízo invisível começa onde o controle termina.